A passagem dos anos pode alterar a resposta do corpo aos estímulos sexuais, mas não determina o fim do desejo. Para o médico Victor Hugo Veiga, especialista em envelhecimento, homens e mulheres tendem a experimentar um desejo mais reativo, que aparece com maior frequência a partir da proximidade e da conexão.
Essa mudança pode ser percebida na história de Patrícia Parenza, de 56 anos. Depois de alguns namoros e dois casamentos de oito anos, ela afirma que nunca precisou reconstruir a relação com a própria sexualidade. Na maturidade, porém, passou a associar o sexo menos ao impulso físico e mais a aspectos intelectuais, ao comportamento do parceiro, à educação, à generosidade e à cortesia.
A experiência de Fátima Taffo seguiu outro caminho. Casada por 20 anos e mãe de quatro filhos, ela conta que concentrou boa parte da vida nas funções de esposa e mãe. Após 10 anos de casamento, uma paixão pelo médico que cuidava de seu pai a levou a reencontrar desejos que estavam adormecidos. A relação durou seis meses e foi interrompida por causa da culpa de ainda estar casada.
O desejo não desaparece com o envelhecimento
Um estudo publicado na Revista de Ciências da Saúde Nova Esperança indica que 51% dos idosos que se declararam sexualmente inativos ainda consideravam o sexo importante. Entre os que continuavam ativos, 94,4% disseram estar satisfeitos depois da relação.
Outro estudo, publicado pelo New England Journal of Medicine, avaliou adultos de 57 a 85 anos nos Estados Unidos. O levantamento britânico English Longitudinal Study of Ageing também dimensionou dificuldades enfrentadas por pessoas mais velhas que permaneciam sexualmente ativas.
Para a sexóloga Cátia Damasceno, a sexualidade na maturidade pode seguir caminhos variados. Algumas pessoas chegam a essa fase interessadas em conhecer melhor o próprio corpo e experimentar possibilidades diferentes. Outras mantêm práticas que já faziam parte da vida, adaptadas às transformações naturais do envelhecimento.
Na avaliação da especialista, a sociedade costuma associar juventude, beleza, sensualidade e desejo. Essa visão ajuda a explicar por que ainda existem tabus em torno da sexualidade de pessoas mais velhas. Ela também ressalta que o corpo muda, mas o prazer continua possível.
No caso de Fátima, o medo de engravidar e as sucessivas gestações limitaram experiências depois do casamento. Com o divórcio, a ausência dessa preocupação permitiu que ela encarasse novas vivências com mais leveza. Hoje, sem parceiro, ela afirma que continua aberta a um relacionamento e não considera a falta de companhia uma renúncia à própria sexualidade.
Corpo, saúde e intimidade
A menopausa pode provocar ressecamento vaginal, alterações nos tecidos genitais, dor durante a relação e mudanças na libido, no sono e no humor. Fátima enfrentou ressecamento vaginal durante uma sequência de perdas familiares e avalia que o quadro esteve relacionado tanto às oscilações hormonais quanto à fragilidade emocional daquele período.
Cátia alerta, porém, que os hormônios não explicam sozinhos as dificuldades sexuais. Corpo, saúde íntima, mente, relacionamento, autoestima e rotina participam desse processo. Veiga acrescenta que doenças cardiovasculares e neurológicas, diabetes, depressão, ansiedade, incontinência urinária e dor crônica também podem interferir na função sexual. Tabagismo, sedentarismo, consumo excessivo de álcool, alimentação inadequada e alguns medicamentos, como determinados anti-hipertensivos e antidepressivos, estão entre os fatores citados pelo médico.
Mudanças súbitas, dor, sofrimento durante o sexo ou a decisão de evitar relações merecem avaliação profissional. A disfunção erétil pode ser um sinal precoce de doença cardiovascular; a queda do desejo pode estar relacionada à depressão; e a dor durante a relação pode indicar problemas ginecológicos, urológicos ou do assoalho pélvico.
Entre as possibilidades de cuidado estão hidratantes e lubrificantes, terapia hormonal local ou sistêmica avaliada individualmente e fisioterapia para fortalecimento do assoalho pélvico. Veiga defende que o tema seja abordado nas consultas de forma natural, como parte do cuidado integral.
Novos relacionamentos e liberdade
A jornalista Zilta Marinho, de 70 anos, se casou novamente na maturidade. Em 2022, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística registrou mais de 74 mil casamentos de pessoas acima dos 60 anos.
Zilta conheceu Edson quando tinha 18 anos, mas os dois só retomaram o contato muitos anos depois. Nesse intervalo, ela foi professora do filho dele e também deu aula ao próprio futuro marido durante uma especialização em pedagogia. Divorciada aos 29 anos, trabalhou no Rio de Janeiro e em São Paulo, cuidou da própria vida financeira, negociou imóveis e criou os filhos com autonomia. Aos 58 anos, voltou a Brasília para cursar jornalismo e, aos 62, fez um intercâmbio na Universidade do Porto, em Portugal.
O relacionamento com Edson começou depois de um reencontro casual e de conversas pelo Facebook. Durante a pandemia, os dois decidiram se casar. Zilta tinha 64 anos, e Edson, 75. A diferença de 10 anos e as experiências acumuladas exigiram novas formas de dividir a rotina e construir a intimidade.
A Associação Americana de Aposentados informa que 1 em cada 6 adultos com mais de 70 anos mantém uma rotina de sexo semanal. Para Zilta, a sexualidade permanece, mas o relacionamento e as fontes de prazer se transformam. O casal integra uma família conjunta com filhos e oito netos e também lida com cuidados de saúde, como o controle da diabetes de Edson.
Fátima, aos 70 anos, participou do Casamento às Cegas e do programa do Luciano Huck como parte de um processo de enfrentamento de vergonhas e restrições da própria geração. Zilta afirma que sua decisão foi bem recebida pela família.
Dados do Longitudinal Ageing Study Amsterdam associam estatisticamente o prazer à longevidade. Para Veiga, cuidar da sexualidade contribui para a saúde mental, os relacionamentos, a autoestima e o senso de identidade.
A sexóloga Cátia Damasceno resume que a maturidade não exige recuperar a juventude, mas compreender os desejos do presente: “Você não precisa voltar aos 20. Você precisa descobrir quem você quer ser agora”.







