Fritz Haber recebeu o Nobel de Química de 1918 por desenvolver uma forma eficiente de produzir fertilizante sintético a partir do nitrogênio do ar. O processo, industrializado pela BASF com a participação do engenheiro Carl Bosch, tornou-se dominante no mundo e ainda é a base da produção de fertilizantes.
A mesma trajetória científica, porém, também levou Haber a trabalhar no desenvolvimento de armas químicas para o exército alemão. Durante a Primeira Guerra Mundial, ele defendeu o uso do gás cloro contra tropas inimigas. A iniciativa marcou o início da guerra química moderna e provocou críticas ao prêmio recebido anos depois.
Da amônia ao campo de batalha
Até 1909, Haber era professor de química física em Karlsruhe, na Alemanha. Naquele ano, conseguiu sintetizar amônia diretamente do nitrogênio do ar, resolvendo um problema estudado pela ciência havia décadas. Quatro anos depois, a BASF industrializou o método com a ajuda de Carl Bosch.
Haber também assinou o Manifesto dos 93 e assumiu a chefia da Seção de Química do Ministério da Guerra. Em 22 de abril de 1915, esteve na Segunda Batalha de Ypres para supervisionar o primeiro grande ataque químico da história militar moderna. O combate durou um mês e deixou mais de 55 mil baixas somente do lado britânico.
Em 2 de maio de 1915, sua esposa, Clara Immerwahr, morreu após atirar contra o próprio peito com o revólver de serviço do marido. Clara foi a primeira mulher a obter doutorado em química na Alemanha e, segundo biógrafos, criticava o trabalho de Haber com armas químicas. As causas da morte continuam debatidas e incluem, entre outros fatores, depressão, um casamento infeliz e a interrupção de sua carreira científica.
No dia seguinte, Haber partiu para a Frente Oriental, onde coordenaria outro ataque com gás, dessa vez contra o Exército russo, perto de Bolimów, na Polônia.
Nobel, exílio e permanência das invenções
O comitê sueco concedeu a Haber o Nobel três anos depois, em meio a protestos de cientistas de países que haviam enfrentado o gás alemão nas trincheiras. Em novembro de 1923, ele visitou o Rio de Janeiro para buscar financiamento para uma tentativa de extrair ouro da água do mar. O projeto não funcionou.
Mesmo com o Tratado de Versalhes proibindo a Alemanha de produzir armas químicas, Haber continuou ligado secretamente ao desenvolvimento do setor. Cientistas do instituto que dirigia em Berlim desenvolveram o Zyklon A, pesticida à base de cianeto usado na desinfecção de silos. Décadas depois, sem participação direta de Haber, a fórmula foi adaptada no Zyklon B, utilizado pelos nazistas nas câmaras de extermínio.
Em 1933, após a ascensão do partido nazista, cientistas judeus do instituto foram obrigados a deixar seus cargos. Haber se recusou a demitir sua equipe, renunciou e partiu para o exílio, passando por Paris, Espanha e Cambridge.
Ele morreu de insuficiência cardíaca em um hotel de Basileia, na Suíça, em 29 de janeiro de 1934, aos 65 anos. Atualmente, o processo Haber-Bosch continua na produção de fertilizantes, enquanto a Regra de Haber, que relaciona a concentração de um gás tóxico ao tempo de exposição, permanece como referência na toxicologia.







