A Bradesco Asset espera que o Comitê de Política Monetária (Copom) continue reduzindo a taxa Selic, mesmo com a possibilidade de alta nos preços dos alimentos, da gasolina e do diesel. Para Marcelo Cirne de Toledo, economista-chefe da gestora, a desaceleração da atividade econômica é hoje o fator mais relevante para a decisão do Banco Central.
O mercado chegava à reunião do Copom desta quarta-feira (16) considerando certo um corte de 0,25 ponto percentual, que levaria a taxa básica para 13,75% ao ano. A Bradesco Asset também projetava reduções de 0,25 p.p. em novembro e 0,25 p.p. em dezembro, com a Selic encerrando o ano em 13,25%.
Atividade econômica perde força
Dados recentes de vendas no varejo, produção industrial, consumo das famílias e do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre apontaram resultados fracos ou negativos. Na avaliação de Toledo, programas como o Desenrola, o Mover Brasil e a isenção de imposto de renda para salários de até R$ 5 mil perderam força ao longo dos meses.
Com o endividamento de famílias e empresas comprometendo a renda e o consumo, indústria, varejo e serviços tendem a desacelerar. Esse movimento reduz o dinheiro em circulação e limita a pressão sobre a inflação. “Não estamos caminhando para uma recessão. Há setores da economia que estão indo bem, mas os dados mostram uma desaceleração evidente”, afirmou o economista.
Pressão sobre alimentos, energia e combustíveis
O Super El Niño pode elevar os preços de grãos e outros alimentos por causa dos prejuízos nas plantações. A Bradesco Asset também considera possível uma alta dos combustíveis, em meio aos conflitos no Oriente Médio e entre Rússia e Ucrânia, que dificultam as negociações envolvendo petróleo e derivados.
A inflação registrou deflação de –0,32% em agosto, influenciada, entre outros fatores, pelo bônus de energia de Itaipu, que reduziu a conta de luz naquele mês. Para os próximos meses, a avaliação é de que os alimentos e os combustíveis fiquem mais caros, enquanto a tarifa de energia volte ao preço normal.
A projeção da gestora é que a inflação acumulada em 12 meses fique entre 5,5% e 6% no começo de 2027. Em agosto, o índice estava em 4,22%.
Decisão considera inflação futura
Toledo afirma que o Copom avalia principalmente as projeções para os preços em um horizonte de 18 meses, e não apenas a inflação corrente. Se os impactos do petróleo e do El Niño forem considerados passageiros, eles terão influência limitada sobre a trajetória dos juros.
A estimativa do economista é que a projeção de inflação do Copom para esse período suba de 3,2% para 3,3%. Ainda assim, a Selic permaneceria em nível elevado. “Em 13% ao ano, a Selic continua muito alta. O Copom seguirá cauteloso com esses cortes de 0,25 ponto”, disse.
Efeito das decisões dos Estados Unidos
A expectativa era de que o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, elevasse os juros em 0,25 ponto percentual, levando a taxa dos fed funds para a faixa de 3,75% a 4,0%.
Para Toledo, porém, os movimentos do Fed não determinam automaticamente as decisões brasileiras. A política monetária do Brasil, segundo ele, responde mais à atividade econômica, à inflação e às expectativas domésticas. O economista citou setembro de 2024, quando o Fed reduzia os juros enquanto o Copom elevava a Selic.
Na avaliação da Bradesco Asset, apenas uma desvalorização muito expressiva do real ou uma piora significativa das expectativas de inflação futura poderia interromper o ciclo de cortes projetado para a Selic.







