SALVADOR — O consumo crônico de álcool e tabaco pode comprometer a produção de energia das células responsáveis pela visão, causando danos graves e até cegueira. A ingestão de metanol, geralmente por meio de bebidas adulteradas, também pode provocar perda visual e outros problemas neurológicos.
As informações fazem parte da publicação Neuro-Oftalmologia, lançada durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia. O trabalho foi organizado pelos oftalmologistas Eric Pinheiro de Andrade, Leonardo Provetti Cunha e Mário Luiz Monteiro.
Como a neuro-oftalmologia investiga o problema
Segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o nervo óptico funciona como uma extensão direta do cérebro e permite observar, por meio do olho, alterações no sistema nervoso central. A neuro-oftalmologia investiga problemas que podem ter origem no cérebro, nos nervos ópticos ou em outras estruturas neurológicas.
Entre as condições avaliadas estão neurites ópticas associadas à esclerose múltipla, infarto do nervo óptico, compressões provocadas por tumores de hipófise e aneurismas, papiledema e paralisias que causam visão dupla. A área também identifica neuropatias tóxicas, carenciais e hereditárias.
No caso do metanol, o CBO informa que a substância causa danos no trajeto entre a retina e o córtex cerebral. Os sintomas costumam aparecer entre seis e 24 horas após o consumo e incluem visão turva, sensibilidade à luz, pupilas dilatadas e perda da visão de cores. O quadro pode evoluir para cegueira irreversível, convulsões e coma.
Sinais de alerta e diagnóstico
Nas neuropatias relacionadas ao uso crônico de álcool e tabaco, a perda visual tende a ser lenta, sem dor e atingir os dois olhos ao mesmo tempo. Isso pode atrasar a percepção do problema. Entre os sinais estão um borrão no centro do campo de visão e o desbotamento das cores. O vermelho pode assumir aparência de rosa lavado, enquanto a visão periférica permanece preservada.
A avaliação médica especializada deve ser rápida diante de perda súbita da qualidade da visão, visão dupla que desaparece ao cobrir um dos olhos, pálpebra caída, dor ao movimentar o olho ou dor de cabeça persistente acompanhada de escurecimentos da visão ao se levantar.
O CBO aponta a anamnese, conversa entre médico e paciente, como um recurso central da investigação. Quando bem conduzida, ela leva ao diagnóstico correto em 90% dos casos. O profissional considera restrições alimentares, cirurgia bariátrica prévia, uso de medicamentos tóxicos, histórico familiar e padrão de consumo de álcool e tabaco.
A investigação pode incluir exames das pupilas, da visão das cores, do campo visual, dos movimentos oculares e do fundo do olho. Também podem ser solicitados tomografia de coerência óptica, ressonância magnética, dosagem de vitamina B12 e testes eletrofisiológicos da visão.
Nas neuropatias tóxicas, a conduta indicada é suspender imediatamente o agente envolvido, como medicamento, álcool ou tabaco. Nos casos carenciais, recomenda-se reposição rápida de vitaminas. A intoxicação aguda por metanol exige tratamento de emergência, com antídotos, correção da acidose e, em alguns casos, diálise. Se iniciada a tempo, a diálise pode preservar a visão.








