O gestor Luis Stuhlberger avalia que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro provocaria uma reação imediata dos mercados, mas não acredita que o resultado, por si só, resolveria os problemas fiscais do Brasil. Para ele, a bolsa poderia subir fortemente, enquanto dólar e juros teriam espaço mais limitado para recuar.
A análise foi apresentada em evento promovido pela Monte Bravo nesta quinta-feira (24), em meio às discussões sobre a eleição presidencial de 2026. Fundador e CIO da Verde Asset, Stuhlberger também afirmou que o país ainda não passou por uma deterioração suficiente para mobilizar governos, Congresso e sociedade civil em torno de reformas estruturais nas contas públicas.
Reação esperada com Flávio Bolsonaro
Na avaliação do gestor, a saída de Lula da Presidência seria recebida com alívio pelos investidores, principalmente por representar o fim da política expansionista petista. “Se o Flávio ganha, eu acho que vai ser uma porrada insana na bolsa”, afirmou Stuhlberger.
A alta recente de Flávio nas pesquisas contribuiu para a compra de ações, segundo a avaliação apresentada no evento. No agregador de pesquisas e no Polymarket, mercado de apostas nos Estados Unidos, o candidato aparece com 60% de chances de vitória, contra 40% de Lula. Para Stuhlberger, essa proporção “parece razoável”.
Mesmo assim, o gestor não projeta uma mudança profunda na condução econômica. Ele considera que um eventual governo Flávio Bolsonaro poderia ceder a pressões políticas de Brasília, ao Centrão e a grupos de interesse organizados. Na sua avaliação, o presidente teria dificuldade para implementar as reformas necessárias à reorganização das contas públicas.
Para o dólar, a estimativa é de recuo para a casa de R$ 4,80. O movimento, porém, seria limitado pela atuação do Banco Central, que tenderia a comprar dólares e recompor posições caso a moeda caísse demais. Nos juros, a expectativa de uma política fiscal mais responsável reduziria os prêmios da curva, mas não provocaria uma queda acentuada das taxas. Os juros norte-americanos continuariam estabelecendo um piso para o recuo dos juros domésticos.
Riscos associados a um novo mandato de Lula
Stuhlberger é mais negativo do que o mercado em relação a um eventual quarto mandato de Lula. Ele afirma que muitos participantes, especialmente estrangeiros, interpretam a possibilidade como uma continuidade do cenário atual. Para o gestor, porém, o terceiro mandato de Lula foi o pior do presidente sob o ponto de vista fiscal, com aumento de gastos, déficits elevados e crescimento da dívida.
A avaliação é que Lula poderia iniciar um novo governo com maior cautela, diante da preocupação da sociedade com as contas públicas. Com o tempo, contudo, a política de expansão poderia retornar, com pouco impacto sobre a popularidade e efeito maior sobre a dívida.
O gestor também aponta sinais de desaceleração da economia, associados aos juros elevados, ao endividamento das famílias e ao aumento da inadimplência. Se esse quadro continuar, uma recessão será possível. Nesse cenário, um novo governo petista poderia recorrer ao crédito e a garantias públicas para sustentar a atividade. Stuhlberger considera que, diante da avaliação negativa do governo e da crise institucional, essa estratégia poderia resultar em uma crise de grandes proporções.
“Não acredito que a reação ruim seria imediata. Mas a chance de dar alguma coisa muito errada em um ou dois anos é grande”, disse.
Dólar, juros e bolsa
As opções de dólar negociadas atualmente indicam uma desvalorização moderada do real em caso de vitória de Lula. Stuhlberger calcula uma alta próxima de 6% da moeda norte-americana, o que levaria o dólar para algo próximo de R$ 5,50.
Nos juros, o cenário seria mais pressionado. As taxas prefixadas tenderiam a subir, refletindo dúvidas sobre a continuidade da queda dos juros e sobre a sustentabilidade das contas públicas. O aumento dos juros nos Estados Unidos também reduziria o espaço para cortes expressivos da Selic no Brasil, enquanto a disposição expansionista de um novo governo petista representaria risco adicional para a inflação.
Na bolsa, o gestor vê a melhor relação entre risco e retorno. Embora reconheça os problemas fiscais associados a um novo mandato de Lula, ele avalia que as ações brasileiras já incorporam boa parte desse cenário. A estimativa é de potencial de alta próximo de 30%, diante de um risco de baixa de cerca de 10% a 12%.
Para Stuhlberger, a diferença entre os dois cenários não elimina os desafios fiscais. Um governo Flávio Bolsonaro seria melhor para os mercados do que um quarto mandato de Lula, mas a reação inicial dos investidores não deveria ser confundida com a capacidade de realizar as mudanças necessárias no país.







