SÃO PAULO — A Bolsa brasileira pode oferecer retorno mesmo sem uma melhora expressiva da economia, segundo Samuel Vecht, gestor de portfólio da BlackRock especializado em mercados emergentes. Para ele, uma eventual redução dos juros, associada a algum controle dos gastos públicos em 2027, poderia beneficiar as ações locais.
Vecht considera o Brasil um “clear buy” — expressão usada no mercado para indicar uma recomendação de compra — e afirma que existe muito pessimismo já refletido nos preços. Ele avalia que uma mudança pequena nas taxas de juros teria efeito relevante porque investidores estrangeiros e brasileiros perderam confiança no mercado diante dos juros elevados.
Brasil e China entre as preferências
China e Brasil são as principais posições acima do referencial nos fundos administrados por Vecht. No caso brasileiro, ele cita como pontos favoráveis a força do país em commodities, a possibilidade de negociar com diferentes parceiros comerciais e a produção agrícola.
O gestor também vê valor em grandes bancos e empresas que já atravessaram ciclos difíceis. Segundo ele, as ações dessas companhias estão depreciadas. Os bancos, que costumavam ser negociados entre dez e 12 vezes o lucro, estão entre cinco e sete vezes. No varejo, empresas antes avaliadas entre 18, 20 e 25 vezes o lucro estão em torno de seis vezes.
Entre os setores ligados à economia doméstica, Vecht aponta bancos, fintechs, varejistas, empresas de consumo e utilities. Ele ressalva que algumas concessionárias de serviços públicos estão relativamente caras, embora isso não se aplique a todas.
Na China, a avaliação é apoiada pelo domínio do país em tecnologia, manufatura e indústria, além da capacidade de produzir em padrões ocidentais e com custos menores. A bolsa chinesa estaria em níveis próximos aos de 20 anos atrás, apesar das mudanças na economia.
Distância entre mercados
Vecht afirma que os mercados emergentes enfrentam um período prolongado de baixa e que os preços das ações em dólar na América Latina e na China não estão muito distantes dos patamares de 2007. Na avaliação dele, os múltiplos desses mercados estão dois desvios-padrão abaixo da média histórica.
O gestor reconhece que os mercados emergentes são mais voláteis e arriscados do que os desenvolvidos, mas espera desempenho superior no longo prazo. Ele também observa que o prêmio pago pelas ações dos Estados Unidos aumentou de maneira desproporcional nos últimos cinco anos.
Para Vecht, a participação do Brasil nos índices não corresponde ao tamanho de sua economia. A América Latina representa 7% do PIB mundial, enquanto responde por cerca de 0,1% dos índices globais de ações. O Brasil representa 4% do índice de mercados emergentes.
No fundo UCITS ligado ao índice de mercados emergentes, a Bolsa brasileira corresponde a 11% do patrimônio, cerca de sete pontos acima do referencial. A exposição à China está em torno de 35%, aproximadamente 15 pontos acima do referencial.
Risco de concentração nos Estados Unidos
O principal risco apontado pelo gestor é a concentração das expectativas em uma única trajetória: a valorização das empresas de tecnologia dos Estados Unidos acima dos demais mercados. Desde 2008, essa dominância persistiu em diferentes cenários de inflação, câmbio e governos.
Vecht diz que é preciso questionar por quanto tempo esse movimento continuará. A teoria de investimentos, segundo ele, indica que a concentração elevada de recursos em uma área pode levar a retornos menores no futuro.
Apesar da avaliação positiva, o gestor não trata uma mudança no Brasil como certa. Ele afirma que as percepções dos investidores podem mudar rapidamente e alterar os preços, mas também reconhece que o país pode surpreender tanto na alta quanto na baixa.








