Grandes perdas de peso podem provocar mudanças no rosto, além da transformação corporal. Entre as queixas estão têmporas e olheiras mais aparentes, redução do volume das maçãs do rosto, flacidez e alterações no contorno da mandíbula.
A percepção ganhou destaque com a popularização das chamadas canetas emagrecedoras, mas já era relatada por pacientes submetidos à cirurgia bariátrica. A cirurgiã-dentista Erika Kugler Nóbrega, especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial, afirma que o fenômeno está associado principalmente à grande perda de peso, e não exclusivamente a um medicamento.
Por que o rosto muda
O rosto tem compartimentos de gordura que contribuem para o volume, a sustentação e o contorno facial. Quando o emagrecimento é expressivo, esse tecido também pode diminuir. Se a pele não se retrai na mesma proporção, a flacidez tende a ficar mais evidente.
O resultado varia de pessoa para pessoa. Idade, genética, anatomia facial, qualidade da pele, exposição solar, hábitos de vida, estado nutricional e a quantidade e a velocidade do emagrecimento estão entre os fatores que interferem nas mudanças. Assim, pessoas que perdem o mesmo número de quilos podem apresentar efeitos diferentes no rosto.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 na National Library of Medicine associou grandes perdas de peso obtidas por intervenções médicas ou cirúrgicas à redução regional da gordura facial e ao aumento da flacidez. Outro estudo, publicado em 2025 na mesma instituição, analisou exames de imagem de 20 pacientes em uso de medicamentos agonistas de GLP-1.
Nesse estudo, cada 10 quilos perdidos esteve associado, em média, a uma redução de aproximadamente 7% no volume superficial da região média da face. Como a amostra foi pequena, o resultado ainda precisa ser confirmado por pesquisas maiores. Uma revisão publicada em 2026 também descreveu alterações de volume, flacidez e contorno facial ligadas ao emagrecimento associado a medicamentos que atuam no receptor de GLP-1.
Tratamento deve ser individualizado
A mudança no rosto pode causar uma sensação de contraste: a pessoa fica satisfeita com o emagrecimento, a melhora da saúde e a autoestima corporal, mas estranha a própria aparência. Isso, porém, não significa que os benefícios do tratamento adequado da obesidade devam ser questionados. Também não é recomendado interromper ou alterar medicamentos sem orientação do profissional responsável.
A perda de volume não indica que todo o tecido desaparecido precise ser reposto com preenchimento. É necessário avaliar se o aspecto cansado ou envelhecido está relacionado principalmente à flacidez, à perda de volume ou à combinação dos dois.
Dependendo do caso, podem ser consideradas medidas voltadas à qualidade da pele, ao estímulo de colágeno, ao tratamento da flacidez e à reposição pontual de volume. Quando há excesso significativo de pele, uma avaliação cirúrgica pode ser necessária.
Erika Kugler Nóbrega também alerta para o risco de compensar cada redução de volume com preenchimentos sucessivos. O rosto continua mudando durante o processo, e o excesso de intervenções pode comprometer a proporção facial.
A avaliação das grandes perdas de peso, portanto, não precisa se limitar ao número indicado pela balança. O acompanhamento também pode considerar a preservação da saúde, da identidade e da harmonia facial ao longo do emagrecimento.







