SÃO PAULO — O uso de canetas emagrecedoras sem acompanhamento médico é um desafio sanitário no Brasil, segundo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). Durante o XXX Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN 2026), ele afirmou que médicos e imprensa devem orientar a população e combater a banalização desses medicamentos.
O nutrólogo relatou que institutos de beleza e esteticistas estão prescrevendo as canetas em diferentes cidades do país. De acordo com ele, pessoas que desejam perder peso rapidamente procuram esses profissionais em vez de um médico. Ribas Filho estima que, de cada oito pessoas, pelo menos uma use os produtos sem acompanhamento médico.
Riscos do uso sem orientação
O presidente da Abran destacou que as canetas são medicamentos e devem ser prescritas por médicos, considerando o perfil de cada paciente. Ele também demonstrou preocupação com a entrada de produtos no Brasil em embalagens inadequadas e sem armazenamento na temperatura recomendada. A comparação feita pelo especialista foi com a insulina, que exige padrões de conservação.
Ribas Filho disse ter observado aumento nos casos de pancreatite, embora ainda não existam dados nacionais que permitam calcular a proporção de usuários com complicações. Ele citou 13 mortes no Reino Unido associadas diretamente ao uso dos medicamentos sem orientação.
Outro ponto de preocupação é a automedicação baseada em informações obtidas por meio de inteligência artificial generativa. Para o presidente da Abran, a disseminação de informações não científicas dificulta a mudança de comportamento e reforça a necessidade de educação da população.
Ele mencionou um trabalho científico do Massachusetts Institute of Technology (MIT) realizado com 100 pessoas jovens. No estudo citado, 70 acreditaram em uma informação não científica e 30 não acreditaram. Quando receberam a informação científica, a reação foi inversa: 70 não acreditaram.
Possível inclusão no SUS
Ribas Filho considera positiva a possibilidade de inclusão das canetas emagrecedoras no rol de medicamentos do Sistema Único de Saúde (SUS), mas avalia que a medida enfrentaria dificuldades financeiras e operacionais. O tema vem sendo estudado pelo governo federal.
Como comparação, ele citou o fornecimento de insulina pelo SUS para pessoas com diabetes. Segundo o especialista, o diabetes tipo 1 representa 1% dos casos, enquanto a obesidade alcança entre 26% e 28% da população, cerca de 60 milhões de brasileiros. Por isso, afirmou que o acesso às canetas, caso ocorra, deverá ser restrito e criterioso.
O congresso promovido pela Abran começou nesta quinta-feira (24), em São Paulo. O evento reúne mais de 3,5 mil profissionais de saúde do Brasil e do exterior, conta com 600 trabalhos científicos e terá, ao longo de três dias, mais de 200 palestras e 70 simpósios.







