A escassez de profissionais capazes de construir sistemas de inteligência artificial em larga escala mudou a disputa global por talentos. A Euronews estima que apenas algumas centenas de pessoas no mundo tenham essa experiência, o que elevou o valor dos especialistas e ampliou a competição entre empresas e países.
No Brasil, o desafio aparece tanto na formação de profissionais quanto na capacidade de mantê-los no país. Entre 2019 e 2024, o setor de Tecnologia da Informação e Comunicação demandou cerca de 665 mil trabalhadores, enquanto 464 mil pessoas se formaram nas áreas correspondentes no mesmo período.
Uma competição internacional
O mercado para trabalhadores altamente qualificados é cada vez mais internacional. Entre a população global de imigrantes, mais da metade tem trabalho fixo e cerca de 38% possui ensino superior completo. No Brasil, esse índice era de 20,4% entre a população adulta em 2024.
A chegada desses profissionais pode movimentar a economia do país que os recebe, com consumo, pagamento de impostos e ocupação de postos de pesquisa. A formação também contribui para a transferência de conhecimento e para a capacidade de inovação local.
Os Estados Unidos mantêm uma estrutura voltada à atração de especialistas. Mais de 70% dos alunos de pós-graduação em ciência da computação nas universidades americanas são estrangeiros. Depois da formação, o visto de treinamento prático permite até três anos de trabalho legal em áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.
Essa estratégia ajudou a concentrar pesquisadores e empreendedores no país. Em 2022, 42% dos pesquisadores globais de inteligência artificial considerados de alto nível trabalhavam nos Estados Unidos. Em 2026, 59% dos unicórnios americanos tinham sido fundados ou cofundados por imigrantes.
O valor dos especialistas
A Meta passou a oferecer a pesquisadores pacotes de remuneração de até US$ 300 milhões em quatro anos. Sam Altman, por sua vez, concedeu bônus a cerca de mil profissionais de pesquisa e engenharia, com valores de centenas de milhares a milhões de dólares, e retirou o período inicial de carência para o vesting de ações de novas contratações.
A disputa também envolve empreendedores. Elon Musk chegou aos Estados Unidos com uma mala de livros e, três décadas depois, havia criado várias empresas e se tornado o primeiro trilionário em dólar da história, fora de seu país de origem.
No ano passado, o Itamaraty registrou 5,29 milhões de brasileiros vivendo no exterior, mais que o dobro da população estrangeira regularizada no Brasil. A perda, segundo a análise, não se limita aos profissionais que deixam o país: também inclui estrangeiros que escolhem outros destinos e fundadores que instalam empresas onde encontram melhores condições de capital, infraestrutura e mão de obra.
Empresas que ficaram no Brasil
Apesar desse cenário, o número de startups de inteligência artificial no país cresceu 177% na série histórica, passando de 352 em 2016 para 975 em 2025.
A BRASA, que reúne mais de 15 mil estudantes brasileiros em faculdades fora do país, criou um movimento para aproximar esses alunos de empresas como iFood, Itaú Unibanco, BTG Pactual e Stone.
Outro exemplo é a Enter, apresentada como o primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina. A empresa foi criada para atender departamentos jurídicos no contencioso de massa por três jovens que poderiam ter buscado financiamento nos Estados Unidos, mas escolheram fundá-la no Brasil. Também surgiram no país a Pax, na segurança pública; a Blip, na inteligência conversacional; e a Wildlife, em jogos para dispositivos móveis.
A experiência dessas empresas indica que profissionais especializados podem encontrar oportunidades no Brasil. A formação de novos talentos, porém, precisa ocorrer junto com medidas para atraí-los e mantê-los no país, conforme a avaliação de Nicola Calicchio, fundador da NC Advisory e ex-CEO da McKinsey na América Latina.








