A busca por atividades presenciais ganhou espaço nas estratégias de enfrentamento à solidão entre adolescentes. O relatório de 2025 da Comissão de Conexão Social da Organização Mundial de Saúde (OMS) informa que 20,9% dos jovens de 13 a 17 anos relatam solidão — cerca de um em cada cinco nessa faixa etária.
Para a psicóloga Kamila Vilela, a adolescência amplia a necessidade de pertencimento. Enquanto a família concentra grande parte da convivência na infância, os jovens passam a procurar vínculos com pessoas da mesma idade. A rotina mediada por telas, porém, pode dificultar a formação de relações presenciais.
“É uma geração hiperconectada, mas sem conexão real”, afirma Kamila. Ela defende o estímulo a atividades compartilhadas, como jogos de tabuleiro e esportes.
Convivência como parte da identidade
A psicóloga e mestre em Psicologia Clarisse Timbó avalia que a socialização participa da construção da identidade. As relações, os grupos e os ambientes dos quais o adolescente faz parte influenciam as crenças que ele desenvolve sobre si mesmo.
A psicóloga Silvia Missi também recomenda atenção aos sinais de afastamento. Segundo ela, evitar uma festa pode gerar alívio imediato, mas esse alívio tende a reforçar a ideia de que não participar é a melhor opção, tornando situações futuras mais difíceis.
Um exemplo de aproximação por interesse comum é o clube de leitura Leitoras de Coragem, que realiza encontros presenciais. As estudantes Bruna Tavares, de 17 anos, Mariana Dell’Antonio, de 17, e Sofia Esperanza, de 18, relatam que o grupo favorece novas amizades e mais segurança para conversar.
Bruna afirma que passou a se sentir mais confortável em debates. Mariana considera a literatura uma porta de entrada para as conversas, enquanto Sofia avalia que experiências presenciais tendem a deixar marcas mais fortes do que interações pelo celular.
Medidas adotadas em diferentes países
O Japão aprovou, em 2024, uma lei voltada ao enfrentamento da solidão e do isolamento. A norma prevê articulação entre governo, municípios e organizações sociais, além de estruturas locais de apoio, identificação de pessoas vulneráveis e ampliação das oportunidades de conexão.
Em abril de 2024, entrou em vigor a Lei de Promoção de Medidas contra a Solidão e o Isolamento, apresentada como a primeira legislação abrangente do mundo dedicada especificamente ao tema. Entre as medidas previstas estão conselhos regionais para localizar jovens isolados e agir de forma preventiva, antes que procurem ajuda médica.
No sistema público de saúde inglês, a chamada prescrição social encaminha pessoas que enfrentam solidão ou isolamento para atividades, grupos e serviços. As opções incluem caminhadas, ações artísticas, esportes, jardinagem e voluntariado, conforme as necessidades de cada pessoa.
Também foram previstas regras para serviços de Inteligência Artificial (IA) que simulam interações humanas e afetivas. Em julho de 2026, passaram a valer normas que proíbem o acesso de menores de idade a companheiros virtuais e outras relações íntimas simuladas por IA. As empresas devem criar mecanismos para evitar dependência emocional e prejuízos às relações no mundo real.
Outra frente envolve espaços de encontro e participação social, com apoio a projetos em clubes esportivos. Bibliotecas públicas de Aarhus, Albertslund e Roskilde oferecem acesso gratuito à Human Library, iniciativa criada em Copenhague na qual voluntários conversam com o público sobre identidade, deficiência, religião e saúde mental.








