A Nvidia anunciou a compra da Hugging Face por cerca de US$ 12,9 bilhões, o maior negócio já realizado pela companhia. O valor equivale a quase 90x a receita anualizada da empresa adquirida, estimada em US$ 150 milhões.
A operação indica que o interesse da Nvidia não está apenas na receita ou no software da Hugging Face. A empresa busca controlar uma posição estratégica no desenvolvimento de inteligência artificial aberta e acompanhar o momento em que clientes escolhem o hardware usado para executar seus modelos.
A Hugging Face foi criada em 2016, em Nova York, pelos franceses Clément Delangue, Julien Chaumond e Thomas Wolf. O negócio começou com um chatbot para adolescentes, mas mudou de direção no fim de 2018, quando sua equipe traduziu para PyTorch um código relacionado aos primeiros avanços dos grandes modelos de linguagem.
Em 2019, a companhia abandonou o mercado consumidor e passou a desenvolver infraestrutura de código aberto. Com o tempo, deixou de ser apenas um repositório e se tornou uma plataforma para publicação, atualização, pesquisa e uso de modelos em produção.
Alcance da plataforma
Dados divulgados pela Nvidia indicam que a Hugging Face reúne 18 milhões de desenvolvedores e pesquisadores. Eles compartilharam 3 milhões de modelos, 500 mil bases de dados e 1 milhão de aplicações. A plataforma também é usada por mais de 200 mil empresas.
A Nvidia já é a maior fornecedora de chips para modelos de linguagem de código aberto e tem mais de 500 modelos e 250 bases de dados publicados. A aquisição também responde ao movimento de grandes clientes que passaram a desenvolver chips próprios, como as TPUs do Google, o Trainium3 e o Inferentia da Amazon e o Maia 200 da Microsoft.
Enquanto esses compradores representam um risco para o negócio principal da Nvidia, a demanda da Hugging Face está distribuída entre empresas, startups e universidades. Os modelos hospedados na plataforma são executados em GPUs, o que permite à Nvidia se aproximar da escolha de hardware feita pelos clientes.
Para desenvolvedores e startups, a expectativa é de pouco impacto imediato, já que mudanças que reduzissem a abertura poderiam comprometer o valor da plataforma. Jensen Huang, CEO da Nvidia, afirmou que a Hugging Face “seguirá sendo uma plataforma aberta para todo o ecossistema de IA”.
Riscos para concorrentes e para a comunidade
AMD, Intel e outros fabricantes dependem das bibliotecas que permitem executar modelos fora do ecossistema da Nvidia. Com a aquisição, a decisão sobre a continuidade e o destaque dessas ferramentas ficará sob o comando de uma empresa que tem interesse direto na venda de seu próprio hardware.
Esse ponto deverá ser analisado pelos reguladores, especialmente para verificar se a Nvidia privilegiará seus chips dentro de uma plataforma relevante para a infraestrutura de inteligência artificial.
Outro risco envolve a independência valorizada por desenvolvedores e usuários. A operação pode afetar a reputação da plataforma e a retenção de profissionais. Os principais sinais a acompanhar são a manutenção das bibliotecas compatíveis com hardware concorrente, a permanência de fundadores e engenheiros-chave e o surgimento de um novo repositório capaz de atrair usuários.
Para a Nvidia, a Hugging Face representa o espaço onde a inteligência artificial aberta está sendo construída — uma proteção estratégica para o futuro da companhia, mais do que uma fonte imediata de receita.








