ESPÍRITO SANTO — A falta de engenheiros, técnicos, eletricistas e outros profissionais qualificados tem dificultado a execução de obras e colocado em risco planos de expansão de empresas no Espírito Santo e no País. Entre os investimentos afetados estão os R$ 140 bilhões anunciados pela Vale até 2030.
O CEO da companhia, Gustavo Pimenta, afirmou que a Vale precisou recorrer a engenheiros e empresas do exterior para apoiar projetos no Brasil. A escassez estimada atualmente é de cerca de 75 mil engenheiros no País, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) calcula que o déficit pode chegar a 500 mil em 2030 e alcançar 1 milhão ao longo da próxima década.
Para Durval Vieira de Freitas, consultor empresarial e CEO da DVF Consultoria, o cenário é preocupante e desafiador. Ele afirma que a falta desses profissionais já é percebida há algum tempo e ocorre em sentido oposto ao de períodos em que havia muitos trabalhadores e poucas vagas, como na década de 1970. Entre os obstáculos citados estão os salários iniciais baixos e os custos indiretos relacionados à contratação.
Empresas buscam trabalhadores fora do Estado
A Ecovias Capixaba, responsável pela administração da BR-101 no Espírito Santo e pelas obras de duplicação da rodovia, mantém vagas para engenheiros e profissionais de áreas técnicas. De acordo com o diretor-superintendente Roberto Amorim, parte da mão de obra necessária não foi encontrada no Estado, levando construtoras a trazer trabalhadores de outras unidades da Federação.
Na construção civil, Weverton Horsay, gestor de obra da Recanto Construtora, relata que o setor segue em crescimento, mas a oferta de profissionais qualificados não acompanha o ritmo. Ele trabalha com os engenheiros Loyslene Gomes, 29 anos, e Gabriel Nassif, 23.
A dificuldade também alcança indústrias e grandes empresas locais. Apesar do desemprego de 2,3% no Espírito Santo, há vagas em metalmecânica, soldagem e caldeiraria com salários de até R$ 8 mil que continuam abertas por falta de qualificação técnica dos candidatos. Comércio, hotelaria, construção civil e mercado imobiliário também registram problemas para contratar e manter trabalhadores, conforme o Balanço do Comércio Capixaba, da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Vitória.
Formação e demanda por qualificação
Especialistas apontam deficiências na formação básica em matemática e ciências, além da evasão em cursos de Engenharia. Segundo Jorge Silva, presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado (Crea-ES), muitos estudantes precisam dividir o tempo entre trabalho e estudo.
O Pisa 2025 mostrou que 72% dos estudantes brasileiros de 15 anos têm dificuldades em matemática. O levantamento também indicou que 7 em cada 10 alunos não sabem fazer contas simples. Outro fator citado é a preferência de 59% dos brasileiros — e de quase 70% dos jovens entre 16 e 24 anos — pelo trabalho autônomo e flexível em vez do emprego fabril tradicional.
No segundo trimestre deste ano, a falta de trabalhadores qualificados liderou as dificuldades apontadas pela construção capixaba na Sondagem da Indústria da Construção. O Mapa do Trabalho Industrial estima a necessidade de qualificar 279,7 mil profissionais no Espírito Santo entre 2025 e 2027. Desse total, 47,4 mil seriam novos trabalhadores e 232,4 mil precisariam de atualização ou requalificação.
A maior demanda projetada está em Logística e Transporte, com 77,8 mil profissionais. Depois aparecem Construção, com 34,2 mil; Manutenção e Reparação, com 25,3 mil; Operação Industrial, com 21,7 mil; Metalmecânica, com 20,2 mil; e Engenharia e Tecnologia, com 12,4 mil.
O estudo é elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria (ONI), da CNI, para orientar o planejamento da oferta de cursos do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Geferson Santos, diretor regional do Senai ES e superintendente do Sesi ES, disse que a demanda resulta da expansão econômica combinada com fatores estruturais do mercado de trabalho.
Há mais de R$ 100 bilhões em investimentos projetados no Espírito Santo até 2031, segundo a Bússola do Investimento do Observatório Findes. Em 2025, o Senai ES ofertou quase 70 mil matrículas de ensino técnico e profissionalizante no Estado.








