A proposta do senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL) de editar um decreto declarando que o “Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo” provocou reação da liderança católica durante a corrida presidencial de 2026. A CNBB e bispos regionais passaram a divulgar manifestações e vídeos sobre o voto consciente.
A entidade afirma não indicar partidos ou candidatos. Ainda assim, o presidente da CNBB, Dom Jaime Spengler, alertou que a combinação intencional entre religião e política historicamente não produz resultados positivos.
Vídeos de bispos do Regional Norte 1, que reúne Amazonas e Roraima, também advertiram os fiéis contra a “manipulação religiosa que pede votos em nome de Deus”. As mensagens destacaram que as igrejas não são currais eleitorais.
Disputa sobre símbolos religiosos
Setores da Igreja Católica interpretam a proposta como uma estratégia direcionada à base evangélica neopentecostal de Flávio Bolsonaro. Nessa leitura, a medida poderia atingir o status de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira oficial do Brasil.
A preocupação é relacionada a um precedente do Congresso Nacional. Em 2007, o então deputado e pastor Victorio Galli apresentou o Projeto de Lei 2623, que buscava alterar a legislação para limitar o título de Nossa Senhora Aparecida a “Padroeira dos brasileiros católicos”.
O texto também associa o debate ao crescimento político de pastores alinhados ao grupo Bolsonaro e à chamada Teologia do Domínio, linha teológica que defende a ocupação de diferentes esferas de poder por cristãos evangélicos. Para os setores católicos mencionados, um decreto presidencial poderia dar respaldo jurídico e político à mudança no espaço institucional ocupado por símbolos católicos.
Histórico de conflitos
A reação católica também considera episódios de hostilidade contra imagens sacras. Em 1995, o bispo Sérgio Von Helde protagonizou na TV Record o episódio conhecido como “chute na santa”.
Em outubro de 2023, o pastor Sérgio Fernandes, de Bastos (SP), criticou a instalação de um monumento a Nossa Senhora Aparecida na entrada da cidade. Ele classificou a imagem como “Satanás fantasiado de azul” e previu “maldição” sobre o município.
Também foram registrados por autoridades policiais casos de depredação de paróquias e destruição de imagens sacras em estados como São Paulo e Paraná. Os episódios foram enquadrados como crime de ultraje a culto, previsto no Artigo 208 do Código Penal.
Nesse cenário, a CNBB e lideranças católicas tratam a proposta de Flávio Bolsonaro como um possível passo para reduzir o espaço legal e cultural do catolicismo no país.







