CURITIBA — A Gazeta do Povo passou a concentrar sua atuação em uma audiência nacional no campo conservador, sob o comando de Guilherme Cunha Pereira. O jornal deixou o impresso e tem hoje 140 mil assinantes, a maior parte fora do Paraná.
A mudança ganhou peso para a família no ano passado, quando Guilherme e a irmã, Ana Amélia, venderam a participação que tinham na RPC, afiliada da Globo no Paraná, para a família Lemanski, que já era sócia do negócio. O foco do empresário está agora essencialmente na Gazeta, que chegou ao breakeven este ano depois de anos recebendo aportes dos controladores.
Guilherme também passou a assumir publicamente as opiniões do jornal. Em editoriais publicados no Instagram da Gazeta, ele critica o que chama de hipertrofia do Judiciário e questiona decisões do Supremo Tribunal Federal, sobretudo as de Alexandre de Moraes.
Em um vídeo, o empresário celebrou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, criticou a atuação de Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e afirmou que Moraes “se deslumbrou e lambuzou com a riqueza”. Também pediu manifestações de entidades e associações de classe e dirigiu críticas a Edson Fachin, presidente do STF.
Guilherme questionou a decisão de Fachin de encaminhar à Procuradoria-Geral da República uma manifestação sobre a admissibilidade e a regularidade de um procedimento relacionado a André Mendonça. Para ele, o presidente do Supremo deveria encerrar a investigação contra o ministro.
Defesa de afastamento e impeachment
Em conversa, Guilherme disse considerar fundamental o afastamento de Alexandre de Moraes enquanto são iniciadas investigações. Na avaliação dele, a medida ajudaria a reequilibrar a situação institucional e tranquilizaria o país. Ele também defendeu a abertura de um processo de impeachment contra Moraes.
O empresário afirmou que o problema não se limita a um ministro. Por isso, propôs uma CPI do abuso de autoridade para identificar decisões que considera abusivas e avaliar, posteriormente, a possibilidade de impeachment de outros integrantes do Supremo.
Entre as mudanças que considera possíveis, mencionou mandatos de 12 a 16 anos para ministros e uma limitação maior das decisões monocráticas. Para ele, o modelo brasileiro de nomeação pode ser preservado, desde que Executivo e Legislativo participem da escolha e o Senado contenha eventuais excessos.
Guilherme disse que sua principal preocupação é o desequilíbrio institucional, e não a disputa entre direita e esquerda. Na avaliação dele, o Supremo teria ultrapassado limites de razoabilidade, afetado o devido processo legal e fragilizado a liberdade de expressão, enquanto o Legislativo permaneceria omisso.
Democracia e liberdade de expressão
O empresário afirmou não considerar que a democracia tenha acabado, mas que ela estaria suspensa. Segundo ele, o Congresso ainda poderia reassumir seus poderes e recolocar o Judiciário nos trilhos. Também defendeu que uma CPI preceda eventuais impeachments, por entender que a investigação permitiria esclarecer as decisões tomadas.
Sobre os atos de 8 de janeiro, Guilherme disse ser necessário separar os manifestantes que interpretavam o artigo 142 como uma solução constitucional para impasses daqueles que defendiam um golpe. Ele classificou como equivocada a ideia de que o dispositivo autoriza uma intervenção militar e criticou condenações coletivas, sem individualização das condutas.
Na discussão sobre liberdade de expressão, afirmou ser favorável à criminalização de injúria, insulto, discriminação e racismo. Ao mesmo tempo, defendeu que críticas a comportamentos não sejam criminalizadas e diferenciou a manifestação de uma posição moral da prática de ofensas ou discriminação.
Sobre a classificação da Gazeta como um veículo de direita ou extrema-direita, Guilherme disse preferir os rótulos direita ou centro-direita à associação com a esquerda no atual ambiente de polarização. Ele afirmou que o jornal defende o princípio da subsidiariedade, respeita a liberdade e a democracia e está aberto ao diálogo.
O empresário declarou manter confiança na cultura democrática brasileira e disse acreditar que o país pode reconstruir sua normalidade com a participação de pessoas de esquerda e de direita.








