Na Amazônia, o turismo de luxo vem sendo associado menos à ostentação e mais a experiências ligadas ao silêncio, à natureza, à cultura e ao conhecimento das comunidades locais. A proposta combina hospedagem confortável, gastronomia e serviço de alto padrão com atividades que dependem da floresta e não podem ser reproduzidas da mesma maneira em outro lugar.
Para Camilla Barretto, CEO da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), o luxo passou a ser percebido de forma mais sensorial e menos material. “O luxo é indissociável da sustentabilidade”, afirma. Nesse modelo, o visitante quer saber a origem dos alimentos, a história das pessoas, os materiais usados e a forma como os produtos são feitos.
A experiência também se distancia de apresentações criadas apenas para turistas. O interesse está na vida cotidiana, na biodiversidade, na cultura e nas comunidades que fazem parte do território. Augusto Costa Filho, empresário e um dos proprietários do Anavilhanas Jungle Lodge, em Novo Airão, resume essa procura com a expressão “quiet luxury” e diz que a Amazônia reúne arquitetura, gastronomia, natureza e cultura.
Conhecimento local como parte da viagem
O contato com a floresta depende de condutores que conhecem os rios, os caminhos, os equipamentos, os roteiros e a história da região. Para Augusto, esse profissional não apenas orienta o deslocamento: ele ajuda o visitante a interpretar o que está diante dos olhos e a reconhecer os diferentes ecossistemas, histórias e saberes presentes na paisagem.
Fabiana Caricati Boaretto, empresária, esposa e sócia de Augusto, defende que a região se afaste da ideia de um luxo baseado apenas na aparência. A combinação, segundo ela, deve envolver autenticidade, conforto e qualidade no atendimento.
Inaugurado em 2007, o Anavilhanas registra uma mudança no perfil de seus hóspedes. No início, cerca de 90% eram estrangeiros e 10% brasileiros. Hoje, conforme os proprietários, a divisão é de aproximadamente 60% de estrangeiros e 40% de brasileiros. Augusto afirma que o interesse dos brasileiros pela Amazônia aumentou nos últimos anos.
Infraestrutura para moradores e visitantes
A expansão do turismo encontra obstáculos de transporte e de infraestrutura. Mais conexões aéreas poderiam facilitar a chegada de visitantes nacionais e internacionais, mas as necessidades da população local também fazem parte do debate.
Fabiana questiona como garantir o funcionamento de empreendimentos turísticos quando trabalhadores enfrentam falta de moradia digna, água encanada e tratamento de esgoto. Com apenas 25 quartos, o Anavilhanas se tornou o maior empregador privado de Novo Airão. Por isso, Augusto defende que as melhorias atendam também quem vive e trabalha na região diariamente.
A formação profissional é outro ponto citado. Ainda é necessário buscar trabalhadores de outras áreas para algumas funções que exigem inglês, mesmo quando há moradores locais preparados tecnicamente. A qualificação pode ampliar a permanência, na própria região, dos empregos de maior remuneração.
Crescimento do turismo
O Brasil recebeu 9,3 milhões de turistas internacionais em 2025, alta de 37,1% em relação ao ano anterior. Os gastos de estrangeiros chegaram a US$ 7,9 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, foram registradas 3,74 milhões de chegadas internacionais.
No Amazonas, 88.869 turistas estrangeiros visitaram o estado em 2025, crescimento de 38% sobre 2024. Entre janeiro e março de 2026, o desembarque de passageiros internacionais no Aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, aumentou 14,84%.
A realização da COP30 em Belém, em 2025, ampliou a exposição internacional da Amazônia. O desafio é converter essa atenção em fluxo contínuo sem criar um turismo de massa que comprometa os mesmos atributos procurados pelos visitantes.
Estratégia para manter o interesse
A Embratur afirma que pretende transformar a visibilidade da COP30 em movimento turístico permanente. Leonardo Persi, coordenador de Segmentos Turísticos da agência, cita como prioridades a ampliação da conectividade internacional, o fortalecimento do turismo de natureza e a divulgação conjunta dos sete estados da Região Norte.
Estados Unidos, Alemanha, França, Portugal, Colômbia e Peru estão entre os mercados considerados relevantes para viagens ligadas à natureza na região. Para a Embratur, a Amazônia tem potencial no segmento de alto padrão por reunir autenticidade, exclusividade, privacidade, silêncio e contato com áreas preservadas.
A expansão, porém, depende de fazer com que a atividade gere renda para os moradores e contribua para conservar a floresta. Nesse modelo, o valor da viagem está justamente em acessar uma experiência ligada ao território, sem transformar sua identidade em produto replicável.







