A inteligência artificial já é usada por profissionais do direito, mas sua aplicação ainda se concentra em atividades de menor complexidade. Pesquisa de leis e jurisprudências, escrita, revisão e resumo de textos simples estão entre os usos mais comuns. O efeito atual é de aumento de produtividade, sem uma transformação completa do trabalho jurídico.
Um estudo publicado em 2023 por pesquisadores da OpenAI e da UPenn apontou que profissões intensivas em linguagem e análise textual estão entre as mais vulneráveis aos modelos de linguagem. No ano passado, a Goldman Sachs estimou que 17% dos empregos jurídicos nos EUA estariam em risco.
Erros e novos usos
A adoção da tecnologia já provocou situações de atenção no Judiciário. Em abril, um desembargador do TJ/RJ identificou uma petição que usava inteligência artificial e citava uma jurisprudência inexistente. O episódio foi classificado como “alucinação de inteligência”, o processo foi extinto e a OAB foi acionada.
Em maio, o STJ começou a investigar tentativas de manipulação dos sistemas de inteligência artificial do tribunal por meio de prompt injection. Ao mesmo tempo, uma startup brasileira voltada ao uso jurídico da tecnologia foi avaliada em mais de US$ 1 bilhão há poucos meses.
Os modelos mais recentes conseguem examinar grandes acervos de textos e selecionar informações relevantes conforme o contexto. Também já é possível organizar grupos de agentes especializados em tarefas diferentes, coordenados para ampliar a capacidade dos profissionais do direito.
Mudança no trabalho jurídico
Para Rafaella de Aquino, advogada, os profissionais precisarão se capacitar para coordenar essas ferramentas. Ainda assim, a presença humana deverá ser mantida, especialmente em decisões estratégicas, por razões relacionadas à legitimidade, à responsabilização e à confiança dos clientes.
A expansão desse uso depende de regras atualizadas e de uma mudança cultural que permita integrar a inteligência artificial às práticas jurídicas de maneira transparente. A expectativa é que os ganhos de produtividade reduzam o número de profissionais necessários para atender a população.
Isso, porém, não significa uma sociedade sem advogados. A tecnologia tende a exigir novas habilidades e reorganizar tarefas, enquanto a tomada de decisões estratégicas continua associada ao trabalho humano.








