A previsão de um El Niño mais intenso pode reduzir as chuvas, elevar as temperaturas e provocar perdas na agricultura do Pará nos próximos meses. Os efeitos tendem a ser mais fortes no Oeste do estado, segundo Lucietta Martorano, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A falta de água no solo pode comprometer culturas anuais e perenes, principalmente entre agricultores que não contam com irrigação. A redução da produtividade também pode afetar a oferta de mandioca, açaí e frutas, pressionando os preços e aumentando a vulnerabilidade de produtores familiares.
Riscos para lavouras e comunidades
O El Niño está associado ao aquecimento do Oceano Pacífico e a mudanças na circulação da atmosfera. No Pará, os efeitos não são iguais em todo o território. O Oeste paraense apresenta probabilidade de 31% de sofrer os impactos, enquanto a região mais ao sul tem 14%, conforme a pesquisadora.
A previsão citada por Martorano indica 90% de chance de o fenômeno ser forte neste ano e 69% de possibilidade de intensificação entre setembro, outubro e novembro. Em outra avaliação, 69% dos modelos apontam que, entre setembro, outubro, novembro e dezembro, o evento será mais intenso que o registrado anteriormente.
Com menos chuva e solo seco, aumenta a queda de folhas e o risco de incêndios e queimadas. A pesquisadora também alerta para a redução da vazão dos rios, o que pode afetar populações tradicionais, indígenas e comunidades que dependem da pesca, dos rios e da agricultura familiar.
Os produtores de maior porte podem recorrer à irrigação quando falta água. Já os agricultores familiares, que em geral não têm essa estrutura, podem perder parte significativa ou até toda a produção. O milho, por exemplo, pode ser prejudicado durante a fase de granação ou floração. A falta de água nesse período impede o desenvolvimento adequado dos grãos.
Culturas perenes também ficam expostas. Martorano cita perdas no cultivo de cacau em Uruará durante secas associadas a El Niño anteriores. Ela também afirma que espécies como citrus podem sofrer quando chegam ao período de colheita sem disponibilidade de água.
Efeitos na produção e nos preços
A pesquisadora relembra que o El Niño de 2015 foi associado a uma queda do Produto Interno Bruto semelhante à registrada durante a covid-19. Em um trabalho publicado em 2017, ela observou que, em anos do fenômeno, o solo já apresentava déficit hídrico em agosto. Em setembro, poderia faltar pasto para o gado e haver menos proteína disponível para os animais.
A menor oferta de alimentos pode elevar os preços. Se a produção local cair e for necessário buscar produtos em outras regiões, o custo tende a aumentar. No projeto IrrigaPote, da Embrapa, produtores de limão em Capitão Poço venderam a saca pelo dobro do preço durante o período seco do El Niño de 2023 para 2024, porque mantiveram a produção com água disponível.
Em Santarém, uma produtora conseguiu manter a oferta de acerola durante a seca usando o mesmo sistema. A pesquisadora afirma que, sem água suficiente, os açaizais nativos podem produzir menos e a mandioca pode não desenvolver o tubérculo necessário para a fabricação de farinha.
Na semana anterior à entrevista, a média semanal da temperatura do Oceano Pacífico estava em 1,8 grau. Martorano considera que uma elevação de 2 graus é preocupante para a região, que tem pouca variação térmica. O aumento da temperatura também pode favorecer a presença de cigarras, gafanhotos e outros insetos.
Planejamento para o período seco
Entre as recomendações estão ajustar o calendário agrícola, antecipar o plantio de culturas anuais ou decidir não plantar quando os alertas indicarem risco elevado. Para as culturas perenes, a orientação é organizar uma estratégia de irrigação e considerar a quantidade de água disponível.
Quem já está com a lavoura em andamento deve avaliar a possibilidade de antecipar a colheita. Plantas em floração não devem passar por estresse hídrico, porque a perda de produção pode ser muito alta.
A Embrapa orienta agricultores por meio do Zoneamento de Risco Climático (ZARC), ferramenta usada para apoiar decisões e reduzir perdas relacionadas ao financiamento e ao seguro agrícola. A recomendação é considerar as informações científicas antes de definir o plantio.
A pesquisadora também alerta para os riscos de queimadas e recomenda que a população não queime lixo. Com a vegetação seca, qualquer faísca pode iniciar um incêndio de proporções maiores.







