CURITIBA — Curitiba planeja investir entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão para instalar inicialmente 120 quilômetros de fiação subterrânea. A mudança deve começar pelo Centro e por áreas adjacentes, com previsão de assinatura do contrato em novembro de 2026. Antes disso, ainda será feita uma avaliação para definir o cronograma de instalação.
O projeto da capital paranaense ocorre enquanto a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) discute a expansão desse tipo de rede no país. Em agosto de 2026, a diretoria da agência abriu uma consulta pública sobre a adoção de redes subterrâneas. Hoje, apenas 0,4% da rede de distribuição de energia elétrica do Brasil fica abaixo do solo.
O que muda nas cidades
Na rede convencional, postes sustentam cabos expostos. No modelo subterrâneo, os fios são instalados sob o solo, geralmente em dutos ou galerias que precisam permitir inspeções, reparos e manutenção.
A retirada dos cabos do espaço aéreo reduz a exposição a ventos, chuvas, galhos e árvores. Um relatório de Análise de Impacto Regulatório elaborado pela ANEEL aponta como possíveis resultados a diminuição da frequência e da duração das interrupções no fornecimento de energia.
O professor de engenharia elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia Edval Debolne também cita o risco de fios caídos depois de tempestades. Esses cabos podem provocar choques elétricos e acidentes graves. “O subterrâneo fica protegido de chuvas, ventos e acidentes”, afirma.
A obra, porém, pode afetar o trânsito durante sua execução e exige cuidados com enchentes e sistemas de drenagem. Depois de concluída, a manutenção pode ser feita com acesso à estrutura subterrânea, desde que não haja inundação.
Impacto sobre árvores e calçadas
A fiação aérea interfere na escolha das espécies e no manejo das árvores. A proximidade entre copas e cabos pode limitar o tamanho das plantas ou exigir podas frequentes. Segundo o engenheiro agrônomo Eduardo Funari, a retirada excessiva da copa reduz a capacidade de fotossíntese e pode deixar a árvore mais vulnerável a pragas e doenças.
Com os fios enterrados, as copas ganham mais espaço e o tempo de poda pode ser reduzido. A mudança também permite o uso de uma variedade maior de espécies, inclusive árvores de grande porte, associadas à oferta de sombra, à redução da temperatura, à melhora da qualidade do ar e à biodiversidade urbana.
O planejamento ainda precisa considerar o crescimento das raízes, o tamanho das calçadas, outras redes subterrâneas e as características de cada espécie. Em locais públicos, as podas são responsabilidade da prefeitura. Quando há conflito com a rede elétrica, a concessionária pode participar do serviço.
Custo e exemplos
O principal obstáculo apontado pelos especialistas é financeiro. A instalação pode custar entre quatro e dez vezes mais que uma rede aérea convencional, conforme as características de cada projeto. A obra é feita pela concessionária, mas o valor pode ser incorporado às tarifas pagas pelos consumidores.
Na área de concessão da Enel São Paulo, os cabos subterrâneos representam cerca de 6,9% da extensão da rede de distribuição. No Rio de Janeiro, a participação chega a cerca de 12,1% pela Light. Os dados são da Bases de Dados Geográficas da Distribuidora (BDGD).
Em São Paulo, há trechos subterrâneos na Rua Oscar Freire, na Avenida Paulista e na Rua José Paulino. No Rio de Janeiro, a modalidade aparece principalmente em áreas centrais e em bairros como Copacabana, Ipanema e Leblon.
Planejamento de longo prazo
O projeto de Curitiba prevê a contratação de estudos para uma Parceria Público-Privada (PPP). De acordo com Vitor Puppi, secretário de Planejamento, Finanças e Orçamento de Curitiba, a iniciativa poderá servir de laboratório para a criação de um marco regulatório sobre o enterramento de fios no país.
Uma das vias previstas no projeto é a Avenida Visconde de Guarapuava. No local, também estão planejadas Soluções Baseadas na Natureza (SbN), com medidas voltadas à drenagem, ao calor e à perda de biodiversidade. A retirada dos cabos aéreos facilita a ampliação da cobertura vegetal e das áreas permeáveis.
Enquanto a rede subterrânea não se torna predominante, Edval Debolne defende a definição de áreas prioritárias, como locais com alta densidade de restaurantes, escolas, faculdades, hospitais e comércio. A implantação poderia ocorrer gradualmente, com parte dos fios enterrada a cada ano.
Outra alternativa é a rede compacta, que reúne os condutores em uma única estrutura e usa cobertura protetora. Esse modelo reduz a possibilidade de curtos-circuitos causados pelo contato com galhos, mas não elimina os riscos nem dispensa o manejo da vegetação. Religadores e equipamentos de automação também podem isolar trechos defeituosos e acelerar a retomada do fornecimento em falhas temporárias.







