BELÉM — As celebrações de São Cosme e São Damião no Brasil acontecem em duas datas: as religiões afro-brasileiras mantêm o festejo em 27 de setembro, enquanto a Igreja Católica celebra os santos em 26 de setembro. A tradição está ligada ao sincretismo religioso e reúne referências católicas, africanas e indígenas.
No Terreiro de Mina Dois Irmãos, no bairro do Guamá, a festa é preparada com brincadeiras e distribuição de guloseimas para crianças e adultos. A casa tem mais de 100 anos de tradição. O pátio recebeu panos listrados nas cores verde, branco e vermelho, enquanto os pacotes de doces começaram a ser organizados.
Eloísa Oliveira, conhecida como Mãe Eloísa de Badé e responsável pelo terreiro, afirma que a celebração representa caridade, união e pureza. “Para nós, esse dia aqui é de muita alegria”, disse.
A tradição dos doces
Pirulitos, pipocas, bombons e chocolates são escolhidos pela relação desses itens com o universo infantil, segundo Eloísa. Na véspera da festa, os frequentadores do terreiro, chamados de filhos da casa, se reúnem para montar os pacotes.
Claudete, de 45 anos, participa da casa desde 2006. Ela contou que os doces são separados e ensacados coletivamente. No ano anterior, foram preparados 700 e poucos sacos de bombons.
As crianças menores participam do festejo dentro do salão. As maiores ficam na frente do terreiro e recebem os doces que são lançados na rua depois da distribuição interna. Eloísa chama esse momento de “pisão”. Segundo ela, os ibejis, também nomeados de encantados, brincam com as crianças, fazem curas e dão bênçãos durante a celebração.
História e sincretismo
O historiador Márcio Neco explica que Cosme e Damião foram médicos e viveram na Ásia Menor, na Síria, durante o século III. Eles atendiam sem cobrar consultas e foram mortos pelo imperador Diocleciano durante a perseguição aos cristãos, tornando-se mártires.
A imagem infantil associada aos santos foi construída pela tradição popular e também pelo encontro com referências das religiões afro-brasileiras. Na cultura iorubá, os erês estão relacionados às brincadeiras e à diversão. Essa representação acabou vinculada a Cosme e Damião no processo de sincretismo religioso.
A devoção aos santos chegou ao Brasil em 1535, em Pernambuco, onde foi construída a primeira igreja dedicada a eles. No Pará, a tradição chegou pelos portugueses e foi ressignificada por africanos e indígenas. A distribuição de bombons se tornou uma característica marcante das festas no estado.
Em outras regiões, a celebração também aparece associada ao caruru servido para sete crianças. A tradição popular afirma que Cosme e Damião tinham mais cinco irmãos.
Mudança no calendário católico
Márcio Neco relaciona a mudança da data católica a uma reorganização litúrgica realizada na década de 60. Segundo o historiador, a Igreja transferiu a celebração de Cosme e Damião para 26 de setembro porque 27 de setembro passou a ser dedicado a São Vicente de Paulo, associado à caridade.
Ele afirma que a alteração não teve como objetivo confrontar as festas ligadas às religiões de matriz africana. Por isso, a celebração popular continuou concentrada em 27 de setembro.
O historiador também critica as associações da festa a demônios, feitiços ou pactos demoníacos. Para ele, essas interpretações representam intolerância religiosa e não correspondem às tradições relacionadas ao dia.
Programação em Belém
Para os frequentadores do Terreiro de Mina Dois Irmãos, a festa também é uma forma de agradecimento pelas graças alcançadas. Na Igreja Católica, a Comunidade de São Cosme e Damião, da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, realiza uma missa no sábado (26), às 19h. A paróquia fica na rua Cesário Alvim, número 565, no bairro da Cidade Velha.







