A Polícia Federal encontrou no celular do banqueiro Daniel Vorcaro uma minuta de contrato entre o Banco Master e o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos, de Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). O documento previa honorários que poderiam alcançar R$ 427 milhões caso o escritório obtivesse êxito em todas as ações relacionadas a precatórios, avaliadas em R$ 8,5 bilhões.
A minuta é datada de março de 2024 e prevê honorários líquidos de 5% sobre os valores recebidos pelo banco em processos ligados à indústria sucroalcooleira. Em nota, o escritório afirmou que nenhum dos casos em que atua para o Master tramita no Supremo Tribunal Federal ou tem relação com ministros da Corte. Também declarou que, embora trabalhe para o banco há quase três anos, não recebeu pagamentos por pró-labore ou por êxito.
Mensagens sobre julgamentos e hospedagens
Alguns meses depois da formalização do contrato, Vorcaro lembrou Newton Ramos de um julgamento de seu interesse, marcado para o dia 4 [dezembro]. O desembargador respondeu: “lembrei” e “tudo certo”.
Em 3 de junho de 2025, Camilla Ramos comemorou uma decisão favorável às usinas na 2a Turma do STF e elogiou o voto do ministro Kassio Nunes Marques. Segundo a mensagem, o placar foi 3x2 e a decisão afastou a aplicação do Tema 826. Depois, a advogada tentou marcar um encontro com o desembargador para conversar.
Mensagens encontradas pela PF também mostram o uso da expressão “turma do KN” por integrantes da equipe de Vorcaro para se referir a pessoas ligadas ao ministro. Em 20 de fevereiro de 2025, o operador de viagens do banqueiro informou que a “turma do KN/Newton” havia enviado seis nomes para uma lista de camarote bancado por Vorcaro no Carnaval do Rio de Janeiro.
As conversas indicam ainda que Newton Ramos pediu organização de hospedagens em Salvador e no Rio de Janeiro. Em maio de 2025, uma assistente de Vorcaro encaminhou ao banqueiro uma solicitação do desembargador por uma tarifa promocional para Nunes Marques se hospedar no hotel Fasano. Vorcaro respondeu que a despesa poderia ser colocada em sua conta. Em outras ocasiões, Newton pediu ingressos para um show em um hotel em São Paulo e para a Fórmula 1.
Precatórios e contatos ligados ao ministro
O Banco Master adquiriu, em 2023, direitos sobre precatórios por meio de fundos de investimento que lhe cederam os créditos. As empresas responsáveis pela administração desses fundos são investigadas na Operação Compliance Zero. A PF apura suspeitas de que parte dos precatórios tenha sido expedida antes do encerramento dos processos, quando a União ainda poderia recorrer e contestar os valores.
Em 1º de outubro de 2024, o ex-diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, enviou a Vorcaro uma mensagem sobre a vitória do banco no processo da “Alcídia”, disputa envolvendo precatórios do setor sucroalcooleiro. Rennó citou votos favoráveis de Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques. Em seguida, encaminhou o contato de Kevin Marques, filho do ministro, com a mensagem “Dominado aqui”.
Em 4 de julho de 2025, Rennó questionou se um pagamento de “500 mil mês” para Kevin deveria ser mantido. No mês seguinte, enviou uma lista de consultorias e escritórios ligados a autoridades e perguntou sobre prioridades. Vorcaro mencionou “Guido e Lewandowski”. Em 8 de agosto de 2025, Rennó afirmou que, entre os pagamentos essenciais, faltava a consultoria.
A Consult pertence a um sócio do filho de Nunes Marques e usa o mesmo endereço de e-mail do IPTF (Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária), que pertence a Kevin.
Em nota, Nunes Marques afirmou que nunca votou a favor de Vorcaro ou do Banco Master, não trocou mensagens com o banqueiro e não pediu nada a ele. Sobre o processo envolvendo a usina, disse que inicialmente estava impedido por anotação da Secretaria, por ter decidido o caso como vice-presidente do TRF-1, mas depois pediu a retificação e votou. Segundo a nota, a decisão não tratava de uma ação do Master, mas de uma tese aplicável a diversas empresas.







