A forma como os ambientes são iluminados e organizados pode influenciar o descanso, a produtividade e a saúde mental. A neuroarquitetura combina conhecimentos da neurociência e do design para planejar espaços que favoreçam o bem-estar, sem deixar de considerar a personalidade e as experiências dos moradores.
Lara Lima Felisberto, mestra e doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), afirma que seguir tendências sem observar a rotina de quem vive no imóvel é um erro. “Um dos piores equívocos é usar apenas as tendências para justificar as escolhas do projeto”, diz.
A pesquisadora também alerta para a popularização do termo, que pode levar à circulação de recomendações sem embasamento. A orientação é buscar referências acadêmicas e fontes consolidadas antes de aplicar conceitos ao projeto da casa.
Iluminação de acordo com o momento do dia
O ritmo circadiano é o relógio biológico de 24 horas que participa da regulação do organismo. Por isso, a iluminação pode ser planejada de maneira diferente em cada cômodo, de acordo com a atividade realizada.
No quarto, os tons quentes são indicados para favorecer o descanso. Já em um home office, a luz fria pode ajudar a manter o cérebro em estado de alerta. Lâmpadas inteligentes e reguláveis permitem alterar a tonalidade ao longo do dia e podem facilitar a transição entre o expediente e o momento de desconectar.
Menos estímulos visuais
A desorganização exige mais esforço cognitivo para a realização de tarefas simples e está associada ao aumento dos níveis de cortisol, hormônio relacionado ao estresse. Um estudo publicado no Journal of Environmental Psychology relaciona a bagunça à redução das sensações de felicidade, segurança e bem-estar.
Com muitos estímulos visuais ao mesmo tempo, o cérebro precisa trabalhar mais para processar o ambiente, o que pode acelerar a fadiga mental. Manter os espaços organizados, portanto, faz parte das escolhas que contribuem para uma casa mais confortável.
Mais luz natural e contato com a natureza
Janelas e aberturas amplas ajudam a levar a luz solar para dentro da residência e permitem acompanhar a variação natural do dia. Giovanna Lima, especialista em neuroarquitetura do escritório Milar Arquitetura, afirma que a maneira como a luz é usada nos ambientes influencia ansiedade, estresse e insônia. “Quanto mais abundante for a iluminação natural, melhor”, pontua.
O estudo A luz natural no contexto da arquitetura e do ser humano no quadro residencial, do físico António J. Santos e do arquiteto António B. Coelho, associa o uso consciente da luz solar ao conforto, à produtividade, ao bem-estar e à eficiência energética do imóvel.
A conexão com a natureza também pode aparecer na decoração. Plantas, móveis e revestimentos de pedra ou madeira, peças artesanais feitas com fibras orgânicas e aberturas voltadas para a paisagem são exemplos de escolhas ligadas ao design biofílico.
A casa precisa refletir o morador
Nenhuma orientação deve ser aplicada de forma automática. Memórias afetivas e experiências pessoais podem fazer com que uma solução funcione para alguém, mas não para outra pessoa. Por isso, a escolha de cores, materiais, lâmpadas e objetos deve dialogar com o modo de vida e o gosto de quem ocupa o imóvel.
A proposta da neuroarquitetura, nesse sentido, não é reproduzir um padrão de decoração. É organizar o lar de modo coerente com a rotina e com as características de seus moradores, evitando que modismos substituam decisões pensadas para o uso real dos espaços.







