CARDIFF — A possibilidade de novos referendos e o desejo de retomar vínculos com a União Europeia estão no centro de um memorando assinado por líderes da Escócia, de Gales e da Irlanda do Norte. O documento prevê que os três países busquem a independência do Reino Unido e tentem ingressar no bloco europeu depois de uma eventual separação.
O primeiro-ministro escocês, John Swinney, afirmou que os governos locais passaram a atuar de forma coordenada. Ao comentar a proposta, disse que Andy Burnham pode entrar para a história como o último primeiro-ministro do Reino Unido.
Assinaram o memorando Michelle O’Neill, primeira-ministra da Irlanda do Norte; Mary Lou McDonald, presidente do Sinn Féin; Rhun ap Iorweth, líder do Plaid Cymru; e Swinney. O encontro ocorreu em Cardiff, capital de Gales.
Diferentes caminhos para a separação
O documento declara que cada nação tem o direito de definir seu futuro por meios democráticos e conforme a vontade da população. Também afirma que os governos da Escócia, de Gales e da Irlanda do Norte estão comprometidos com a independência e que o modelo econômico britânico está falido.
A Irlanda do Norte tem direito constitucional a um referendo, previsto no Good Friday Agreement, firmado em 1998 entre Londres e a República da Irlanda para encerrar os episódios de violência conhecidos como The Troubles. Na Escócia, Swinney pretende realizar uma votação até 2031, mas ainda depende da anuência de Londres.
Gales está em uma situação diferente. O governo local não tem poder para convocar um referendo de independência, e o premiê galês afirmou que buscará essa prerrogativa.
A reunião ocorreu depois de Burnham dizer a parlamentares que autorizaria outro referendo escocês caso houvesse um consenso claro a favor da consulta. A última votação sobre o tema aconteceu em 2014, quando 55% da população preferiu permanecer no Reino Unido.
Brexit e cenário político
A saída da União Europeia alterou a relação entre Londres e os três países. As populações da Escócia e da Irlanda do Norte votaram contra o Brexit, aprovado pela votação maciça dos ingleses.
Na Escócia, o Partido Nacional Escocês consolidou sua força nos últimos 10 anos. Na Irlanda do Norte, o Sinn Féin, contrário ao Reino Unido e favorável à unificação irlandesa, chegou ao poder pela primeira vez em 2024. Em Gales, o Plaid Cymru encerrou, em maio, décadas de domínio do Partido Trabalhista e formou um governo nacionalista.
O memorando afirma que o Brexit prejudicou as economias e limitou oportunidades, além de defender a reconstrução das relações europeias em áreas como comércio, investimento, cultura e cooperação.
Para Francesco Nicoli, professor de ciência política na Faculdade Politécnica de Turim e especialista em União Europeia, o movimento também está relacionado ao crescimento do Reform UK, liderado por Nigel Farage. Na avaliação dele, os três países podem estar se preparando para um cenário adverso, e não necessariamente demonstrando apenas o desejo de integrar a União Europeia.








