A leitura é um dos principais critérios usados por Rodrigo Tannuri ao entrevistar jovens candidatos a estágios em escritórios de advocacia. A pergunta feita por ele é sobre o que o candidato leu por prazer nos últimos doze meses.
Tannuri afirma que a resposta revela mais do que um hábito pessoal. Para ele, o candidato que diz não ter tido tempo para ler, atribuindo isso às exigências da faculdade, mostra como escolheu usar suas horas livres e o quanto se preparou para uma profissão que exige interpretação.
Linguagem e interpretação
A relação entre leitura e trabalho jurídico aparece, segundo Tannuri, na própria natureza da advocacia contenciosa. Contratos podem dizer uma coisa e pretender outra; além disso, um precedente favorável pode conter um trecho que o adversário interpretará melhor. Essas situações exigem lidar com ambiguidades, e não apenas buscar respostas definitivas.
O advogado também questiona a expectativa por certezas sobre processos. Clientes costumam perguntar quais são suas chances de vitória e, em alguns casos, pedem percentuais. A incerteza, porém, faz parte tanto da ciência quanto da análise dos conflitos jurídicos.
Para ilustrar o efeito da literatura, Tannuri menciona obras como Dom Casmurro e Guerra e Paz. A primeira pode estimular uma leitura desconfiada de uma narrativa; a segunda ajuda a perceber que os motivos humanos são complexos. A poesia, por sua vez, mostra como a ordem das palavras interfere no sentido, algo importante na interpretação de decisões judiciais.
Ele também relaciona a leitura à capacidade de falar em público. Na avaliação do advogado, dizer que não gosta de falar pode esconder a falta de algo a dizer. O domínio de cinco idiomas, sozinho, também não o impressiona se o candidato não for capaz de pensar em nenhum deles.
A pergunta sobre livros, afirma Tannuri, é o momento em que o candidato deixa de ser apenas um currículo e se apresenta como pessoa. Ele é sócio do Tannuri Advogados e mestre em Direito pela Universidade de Columbia.








