A Olist passou a concentrar sua operação em um ecossistema de soluções para pequenas e médias empresas, depois de abandonar o negócio de criação e gestão de lojas dentro de grandes marketplaces. A atividade havia sido responsável por 30% do faturamento e tinha margem bruta próxima a 35%.
A mudança foi conduzida pelo fundador e CEO, Thiago Dalvi, ao longo de cerca de cinco anos. A empresa havia se tornado unicórnio com esse modelo, que atraiu Softbank, Valor Capital e Wellington Management.
ERP como centro da operação
O núcleo atual da Olist é o ERP que surgiu com a aquisição da Tiny, feita em 2021. O sistema permite administrar estoque, contas a pagar e receber, pedidos, vendas e integrações com diferentes canais.
A partir dele, a companhia conectou plataforma de ecommerce, PDV, serviços financeiros, crédito, pagamentos e logística. A proposta é oferecer várias soluções para o mesmo cliente, com os produtos funcionando de forma integrada.
Cerca de 65% da receita vem de assinaturas do ERP, PDV, CRM e plataforma de ecommerce. Os serviços financeiros representam cerca de 20%, enquanto a logística responde por outros 10%.
Segundo Dalvi, o negócio principal cresce 65% ano contra ano e operava, em agosto, com margem bruta próxima de 70% — cerca do dobro da margem da antiga Olist Store. A companhia deve encerrar o ano com crescimento de cerca de 55% e prevê manter expansão entre 45% e 50% ao ano.
Aquisições e mudança de mercado
A construção do ecossistema começou a partir de 2019, com aquisições como a Clickspace e a PAX, em 2020; a Tiny e a Vnda, em 2021; e a fintech Flip, no ano passado. Por um período, os ativos continuaram funcionando quase separadamente. Depois, a Olist unificou marca, login, cobrança e experiência, colocando o ERP no centro da operação.
A integração ganhou ritmo nos últimos 18 meses. A PAX contribuiu com tecnologia de roteirização e first mile, enquanto a Flip trouxe conhecimento em crédito. Os produtos foram reconstruídos e incorporados à plataforma, e metade do crescimento já vem dessas novas frentes, segundo o CEO.
A transformação também ocorreu enquanto o mercado original da empresa mudava. Mercado Livre e outros marketplaces passaram a fechar mais seus ecossistemas, incluindo a logística, e empresas como Shopee e Shein avançaram no Brasil. A Olist também tinha exposição relevante à Americanas durante o ataque hacker de 2022 e diante da descoberta de inconsistências contábeis em 2023.
“Percebemos que não poderíamos mais depender desse negócio”, disse Dalvi.
Caixa e próximos investimentos
O ERP é visto pela companhia como porta de entrada para atividades com maior margem e recorrência. Cerca de R$ 70 bilhões em volume, originados por meio de notas fiscais e faturas, passam pelo sistema.
O crédito já representava cerca de 20% da receita em agosto e crescia quase 100% ao ano. Só este ano, a Olist originou R$ 1 bilhão em crédito.
A empresa atingiu o breakeven em agosto. Para o quarto tri deste ano, a expectativa é gerar entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões em caixa, contra uma queima de R$ 15 milhões no mesmo período de 2025.
A Olist planeja investir cerca de R$ 500 milhões nos próximos dois anos em ERP, logística e serviços financeiros. O montante virá do caixa, sem necessidade de capital externo, segundo Dalvi.
A empresa pode fazer alguma transação para dar liquidez aos fundos que estão no cap table desde 2015. A Olist foi avaliada em US$ 1,5 bilhão na Série E, cinco anos atrás. Para o fundador, o modelo atual tem menor concentração de risco e depende principalmente da capacidade de execução da companhia.








