Contagem, Quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Finanças da casa

Novos repasses ampliam valor pago por Vorcaro ao filme de Flávio Bolsonaro

Relatório do Coaf indica pagamento de 1,6 milhão de dólares em setembro e possível nova parcela em outubro de 2025.

Flávio ao lado de Mario Frias (à esq.), produtor do filme, Jim Caviezel, ator que interpreta Jair Bolsonaro, e Carlos Bolsonaro
								
								-
								
								Crédito: Reprodução
Reprodução

Breno Pires, de Brasília 01 Set 2026

5 min de leitura

Quando conversas comprometedoras de Daniel Vorcaro vieram a público, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, procurou a imprensa para tentar explicar a relação. Em entrevista, reduziu a importância do áudio em que cobrava dinheiro de Vorcaro para financiar Dark Horse, cinebiografia de seu pai. No fim da conversa, afirmou que o banqueiro não fazia qualquer pagamento ao filme havia meses, desde que as suspeitas sobre as fraudes do Master se tornaram conhecidas. “Olha só. O último pagamento que ele fez [...] foi em maio de 2025”, declarou.

Novas parcelas do filme

A afirmação, porém, não correspondia aos registros. Uma reportagem publicada neste mês mostra que, em 16 de setembro de 2025, Vorcaro encaminhou outra parcela de 1,6 milhão de dólares ao Havengate Development Fund, fundo americano responsável por administrar os recursos de Dark Horse. O valor exato da transferência foi de 1 milhão, 666 mil e 667 dólares. A informação está em um relatório do Coaf, órgão responsável pela fiscalização de transações financeiras. O documento indica que a relação financeira entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro se estendeu por muito mais tempo do que o senador reconheceu.

A transferência ocorreu oito dias depois de Flávio mandar uma mensagem ao banqueiro para cobrar parcelas em atraso. Com esse pagamento, que ainda não era conhecido, o montante enviado por Vorcaro para a cinebiografia de Bolsonaro aumentou de 10,6 para 12,3 milhões de dólares. Pela cotação daquele período, a quantia correspondia a mais de 65 milhões de reais.

Também existem indícios de uma nova transferência, feita depois de outra cobrança de Flávio. Na manhã de 22 de outubro, no terceiro dia das filmagens, o senador voltou a entrar em contato com Vorcaro. Às 8h54, escreveu que as gravações já estavam no terceiro dia e que a equipe havia chegado ao limite. Nove minutos depois, disse que, caso não fosse possível realizar o pagamento, precisaria buscar outro caminho com urgência. Às 9h22, o banqueiro respondeu que cuidaria do assunto e verificaria naquele momento.

A cobrança aparentemente produziu resultado. Um trecho inédito das conversas por WhatsApp entre Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que colaborou na captação de recursos para o filme, mostra que Miranda escreveu ao banqueiro menos de 1 hora depois das mensagens de Flávio. Ele perguntou se as parcelas do filme poderiam ser liberadas e avisou que, caso contrário, a produção seria interrompida. Vorcaro respondeu: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Miranda disse que avisaria os responsáveis e acrescentou que Flávio havia informado que ligaria para o banqueiro. Em seguida, Vorcaro pediu que Miranda se desculpasse com Flávio pelos atrasos nos pagamentos. Se a parcela de 1,6 milhão de dólares mencionada pelo banqueiro tiver sido realmente paga, o total desembolsado chegará a 14 milhões de dólares, equivalentes a 72 milhões de reais.

Com base nas informações já conhecidas, o acordo entre o banqueiro e o candidato à Presidência previa pagamentos de 24 milhões de dólares. Considerando a transferência realizada em setembro, são sete as parcelas reconhecidamente pagas por determinação de Daniel Vorcaro para atender a Flávio Bolsonaro. A possível remessa de outubro representaria a oitava parcela.

Questionado sobre o motivo de ter omitido que sua relação financeira com o banqueiro se manteve durante praticamente todo o ano de 2025 e sobre o total pago por Vorcaro, Flávio Bolsonaro não quis responder. Sua assessoria afirmou que a produtora do filme deveria ser consultada sobre a existência de outras transferências. A assessora também disse que o assunto não era responsabilidade deles. Mesmo diante da informação de que a nova parcela indicava uma declaração pública falsa do candidato, ela manteve a posição de que Flávio não precisava prestar esclarecimentos.

Essa não foi a primeira vez que o senador apresentou uma versão considerada falsa sobre o caso Dark Horse. Em março passado, depois que se tornou público que seu número de telefone estava na agenda de Vorcaro, Flávio afirmou a uma colunista que nunca havia mantido contato com o proprietário do Master. Quando questionado sobre o motivo de o filme ter sido financiado por Vorcaro, negou a informação e perguntou de onde ela havia sido obtida.

Na mesma entrevista, Flávio também declarou que o Havengate era fiscalizado pela SEC, órgão americano comparável à Comissão de Valores Mobiliários no Brasil. A informação não procede. Ele afirmou ainda que o fundo havia sido encerrado assim que surgiram as primeiras suspeitas sobre os negócios de Vorcaro. Os registros fiscais do Texas, no entanto, mostram que o fundo continua ativo até hoje.

Rota dos recursos

A polícia investiga agora o caminho percorrido pelo dinheiro. Os valores não eram enviados diretamente pelas empresas de Vorcaro nem depositados na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment llc, nos Estados Unidos, como ocorreria no fluxo habitual. Em vez disso, Vorcaro encaminhava os recursos por meio do doleiro Antonio Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”. Ele é proprietário da Entre Investimentos e Participações e já se apresentou publicamente como especialista em câmbio de saída, atividade que classificou como mais arriscada. O destino dos valores era o Havengate, fundo sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado especializado em imigração, sem atuação na área cinematográfica e amigo de Eduardo Bolsonaro, que também mora no Texas.

Como o Havengate transferia o dinheiro para a produtora, as investigações procuram determinar se todos os recursos eram realmente destinados à produção do filme. A polícia apura se parte do dinheiro permaneceu no fundo ou foi parar com Eduardo Bolsonaro, que passou a morar nos Estados Unidos em fevereiro do ano passado. Por coincidência, esse foi o mesmo mês e ano em que Vorcaro começou a enviar ao Havengate as parcelas destinadas ao filme. A primeira remessa, no valor de 2 milhões de dólares, ocorreu em 13 de fevereiro de 2025.

Até o momento, não há prova de que parte dos milhões enviados por Vorcaro tenha sido desviada para financiar a permanência de Eduardo nos Estados Unidos. Os investigadores, porém, ainda buscam esclarecer qual era exatamente a função de Eduardo na administração dos recursos. Quando o áudio de Flávio foi divulgado em maio passado, Eduardo minimizou sua participação na produção. Em entrevista, afirmou apenas que havia investido 50 mil dólares do próprio dinheiro no filme para assegurar a contratação do diretor, mas que depois recebeu o valor de volta.

Na documentação americana da produção, entretanto, Eduardo aparece em alguns momentos como “produtor executivo” e, em outros, como “financiador”. As investigações querem estabelecer até que ponto ele controlava os recursos mantidos na conta do Havengate. A produtora foi questionada, mas não apresentou uma resposta objetiva. Na prática, o caso envolve duas caixas-pretas: a do filme e a do fundo.

Texto produzido pela Redação Lar em Pauta com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Receba nossa newsletterUma seleção diária, direto na sua caixa de entrada.

As mais lidas

  1. 1
  2. 2
  3. 3
  4. 4
  5. 5