A Polícia Federal afirma que o Banco de Brasília (BRB) transferiu cerca de R$ 17 bilhões ao Banco Master na compra de carteiras de crédito. Desse total, aproximadamente R$ 12,2 bilhões corresponderiam a títulos sem valor, derivados de créditos consignados inexistentes.
A fraude, segundo a investigação, envolvia Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) falsas. Os documentos seriam produzidos a partir de créditos gerados pela Tirreno, empresa de fachada criada em dezembro de 2024 e controlada pela Cartos, uma Sociedade de Crédito Direto.
Operações aceleradas
Documentos tornados públicos pelo Supremo Tribunal Federal mostram que uma carteira Credcesta chegou ao BRB com valor contábil de R$ 179,6 milhões. Apenas R$ 110 milhões foram considerados aptos para compra. As informações foram obtidas pela PF em conversas do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, com o diretor de finanças, Dário Oswaldo Garcia Junior, ao longo de novembro de 2024.
A investigação também aponta que o Master apresentou um contrato de cessão de R$ 400 milhões para assinatura imediata. Três contratos foram assinados em poucos minutos, perto do fechamento do sistema bancário, às 17h30, sem análise técnica, conforme a PF.
Os primeiros contratos enviados pelo Master teriam sido assinados pela equipe do BRB e cancelados no mesmo dia. Depois, o banco teria encaminhado novas versões alteradas. Para a Polícia Federal, o procedimento indicaria pressão indevida e aceleração deliberada.
Em uma conversa, Costa escreveu que não entendia como novas carteiras apareciam quando se dizia que não havia carteira. Garcia respondeu: “Nem eu”. A PF afirma ainda que a diretoria do BRB insistiu na compra de ativos mesmo diante de pareceres jurídicos contrários desde abril de 2025.
Entre as medidas identificadas, estavam a elevação do limite de inadimplência das carteiras de 4% para 5% e o fracionamento de contratos para liberar operações em tranches, sem seguir o circuito de aprovação padrão.
Alertas do Banco Central
Em fevereiro de 2025, o BRB assinou um termo de ajustamento de conduta com o Banco Central. Auditorias apontaram falhas na avaliação dos créditos comprados do Credcesta, no envio de documentos, dados e informações ao órgão e a necessidade de uma auditoria independente.
Mesmo depois do acordo, o BRB comprou mais R$ 4 bilhões em créditos. A PF afirma que a diretoria tinha conhecimento e responsabilidade sobre as aquisições após os apontamentos do Banco Central. Em maio de 2025, o banco continuou comprando carteiras do Master, que já teria vendido R$ 12,2 bilhões em créditos fictícios.
Uma anotação de reunião da diretoria realizada em 11 de julho de 2025 registra que o presidente do BRB teria defendido a continuidade das compras, apesar de pareceres jurídicos contrários emitidos em abril daquele ano.
O BRB informou que removeu integralmente a diretoria executiva que comandava a instituição durante os negócios com o Master. A atual gestão afirmou que os ex-dirigentes não devem ser confundidos com o banco e que adotará medidas para proteger o patrimônio, buscar o ressarcimento de eventuais prejuízos e aprimorar controles e governança.
Participação atribuída ao Master
A PF atribui a Augusto Lima a elaboração de carteiras fraudulentas repassadas pelo Master ao BRB. As investigações citam mensagens trocadas por Lima com Henrique Peretto, controlador e dono da Tirreno, e com Daniel Vorcaro, que buscava recursos no banco público.
Lima foi preso em novembro na Operação Compliance Zero, junto de Vorcaro e outros executivos, por suspeita de envolvimento nas fraudes. Ele foi solto 11 dias depois e passou a usar tornozeleira eletrônica.
Segundo a investigação, a partir de janeiro de 2025, Lima passou a elaborar as carteiras. Mensagens indicariam que Vorcaro cobrava contratos e CCBs, pressionava por prazos e acompanhava o envio de documentos e assinaturas para que as operações fossem liquidadas no mesmo dia.
Para apresentar lastro documental às operações, o Master teria usado extratos e documentos relacionados a créditos já vendidos ao BRB. Em um grupo chamado “INFO-BRB”, o saldo de um extrato da Tirreno foi alterado de R$ 6,4 milhões para R$ 7,2 milhões e depois para outro valor sem correspondência com os anteriores.
Lima rejeita as alegações da petição e afirma que elas reproduzem suspeitas do início da investigação que não se sustentariam diante dos elementos reunidos posteriormente. A defesa também nega proximidade com o BRB e participação na negociação das carteiras. Lima diz ter deixado a sociedade e a direção do Master em maio de 2024.








