A independência dos Estados Unidos foi uma das referências para movimentos que questionaram o domínio português no Brasil e antecederam a separação, em 7 de setembro de 1822. Primeira colônia nas Américas a se libertar da Europa, o novo país passou a influenciar debates políticos em outras partes do continente.
No Brasil, as informações sobre o processo americano circularam por cartas, livros e conversas. Ao longo do século 18, o aumento da integração comercial brasileira ao mundo atlântico facilitou o contato com as notícias vindas dos Estados Unidos.
Revoltas e ideias republicanas
A Inconfidência Mineira, ocorrida 13 anos depois da independência americana, em 1789, foi um dos principais exemplos dessa influência. O movimento defendia a separação de Portugal e tinha Tiradentes entre seus líderes.
A historiadora Kirsten Schultz, da Universidade Seton Hall, destaca José Joaquim Maia e Barbalho (1757–1788), médico que manteve correspondência com Thomas Jefferson (1743–1826) e se encontrou com ele na França para discutir a situação brasileira. José Álvares Maciel (1760–1804), outro nome ligado à Inconfidência, acompanhava da Inglaterra os acontecimentos nos Estados Unidos.
A professora Mary Anne Junqueira, da Universidade de São Paulo, afirma que a influência americana existiu, mas foi difusa. Para ela, a Europa também produzia ideias relevantes, como as reflexões de Montesquieu sobre a República, objetivo de parte dos inconfidentes. “É claro que a independência dos EUA foi uma referência importante, mas não quer dizer que era um modelo para nós”, disse Junqueira.
Schultz considera que a independência americana foi uma entre várias influências acumuladas no período. As revoluções Francesa e Haitiana também contribuíram para o ambiente de mudanças que atingia as potências europeias.
A Conjuração Baiana, em 1798, tinha caráter abolicionista e republicano. Embora seus participantes também observassem os Estados Unidos, a Revolução Haitiana exerceu impacto mais palpável, especialmente pela participação de escravizados e de outras camadas populares.
Em 1817, a Revolução Pernambucana buscou implantar uma república federalista inspirada no modelo americano. Um emissário brasileiro foi enviado aos Estados Unidos e se reuniu com o secretário de Estado. O cônsul americano no Recife apoiou a revolta, que, assim como a Inconfidência e a Revolução Baiana, antecedeu a independência do Brasil.
Constituição e reconhecimento
Depois da separação de Portugal, o Brasil teve sua primeira Constituição, em 1824, durante o período de dom Pedro 1º. A Constituição americana era uma das configurações disponíveis para estudo, especialmente por suas ideias de representação, direitos e cidadania.
Os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer a independência brasileira. Para Junqueira, reconhecer novas independências nas Américas também reforçava a própria posição americana diante do temor de uma reação europeia. Schultz acrescenta que o potencial econômico brasileiro e a possibilidade de comércio sem as restrições das políticas portuguesas também estavam entre os interesses envolvidos.
As relações entre os dois países ainda incluíram temas como escravidão, a Guerra Civil Americana e a abolição.








